Samuel Beckett
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Man Ray: “Dora Maar” 1936. París
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Fragmento de O inominável, de Beckett
"...
eu sou em palavras, palavras dos outros, que outros, o lugar também, o ar
também, as paredes, o solo, o teto, as palavras, todo o universo está aqui,
comigo, eu sou o ar, as paredes, o emparedado, tudo cede, se abre, deriva,
reflui, flocos, sou todos esses flocos, cruzando-se, unindo-se, separando-se,
aonde quer que eu vá me reencontro, me abandono, vou em minha própria direção,
venho de mim, nunca mais do que eu, que uma parcela de mim, retomada, perdida,
falhada, palavras, eu sou todas essas palavras, todos esses estranhos, essa
poeira de verbo, sem chão onde pousar, sem céu onde se dissipar,
reencontrando-se para dizer, fugindo-se para dizer, que eu as sou todas, as que
se unem, as que se separam, as que se ignoram, e não outra coisa, sim, qualquer
outra coisa, que sou qualquer outra coisa, uma coisa muda, num lugar duro,
vazio, fechado, seco, limpo, negro, onde nada se move, nada fala, e que eu
escute, e que eu ouça, e que eu busque como uma fera nascida na jaula feras
nascidas na jaula feras nascidas na jaula feras nascidas na jaula
feras nascidas na jaula feras nascidas na jaula feras
nascidas e mortas na jaula nascidas e mortas na jaula feras nascidas na
jaula e mortas na jaula nascidas e mortas nascidas e mortas na jaula na
jaula nascidas e depois mortas nascidas e depois mortas, como uma fera
digo eu, dizem eles, uma fera assim, que busco, como uma fera assim com meus
pobres meios, uma fera assim, não tendo de sua espécie mais do que o medo, a
raiva, não, a raiva acabou, apenas o medo, mais nada de tudo que lhe cabia do
que o medo..."
Samuel
Beckett. in O inominável. Trad.
Waltensir Dutra. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1989, pp. 107-108.

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