Hanah Arendt em gotas para doenças imperiais


Tropas norte-americanas preparadas para a defesa da demokraken


Hanah Arendt em gotas para doenças imperiais


"Ninguém pode ser cidadão do mundo quando é cidadão do seu país. Jaspers, em seu Origin goal of history (1953), discute extensamente as implicações de um Estado e um império mundiais. Qualquer que fosse a forma que pudesse assumir um governo mundial com poder centralizado sobre todo o planeta, a própria noção de uma força soberana a governar toda a Terra, com o monopólio de todos os meios de violência, sem controle e verificação por parte de outros poderes soberanos, não é apenas um pesadelo ameaçador de tirania, mas seria o fim de toda vida política, tal como a conhecemos. Os conceitos políticos se baseiam na pluralidade, diversidade e limitações mútuas. Um cidadão é, por definição, um cidadão entre cidadãos de um país entre países. Seus direitos e deveres devem ser definidos e limitados, não só pelos de seus companheiros cidadãos, mas também pelas fronteiras de um território. A filosofia pode conceber o globo como a terra natal da humanidade e uma lei não escrita eterna e válida para todos. A política trata dos homens, nativos de muitos países e herdeiros de muitos passados; suas leis são as cercas positivamente estabelecidas que cingem, protegem e limitam o espaço onde a liberdade não é um conceito, mas uma realidade política viva. O estabelecimento de um Estado soberano mundial, longe de ser o pré-requisito da cidadania mundial, seria o fim de qualquer cidadania. Seria não o clímax da política mundial, mas seu fim absolutamente literal." (ARENDT, Hannah. Homens em tempos sombrios. Trad. Denise Bottmann. São Paulo: Companhia das Letras, 2008, p.90)


Glosa 1

Um dos corolários da globalização leva à ideia de uma representação mundial capaz de administrar o planeta em todos os níveis, do ambiental ao político, do econômico ao cultural. Trata-se de um passo além daquele dado com a criação da ONU. No entanto, mais do que um passo, presenciamos tropeços seguidos. A ONU não guarda mais o ideal de instância acima das nações, capaz de funcionar como intermediária entre interesses diversos, defensora da paz, apaziguadora de conflitos. A entidade, concebida como uma agência reguladora de disputas entre as nações, tornou-se uma instituição aparelhada pelo que há de pior na sociedade: os interesses imperiais do capitalismo norte-americano. É a instituição que permitiu a agressão à Líbia, delegando o serviço sujo à OTAN. É a mesma que criou as condições propícias à destruição do Iraque. Posso parar por aqui, não é necessário mencionar a sua inútil e desastrada intervenção no Haiti, com a MINUSTAH, a criminosa passividade diante dos conflitos étnicos, massacres e genocídios na região do Cáucaso ou a cínica omissão sobre a situação dos imigrantes na Europa e nos Estados Unidos.


Glosa 2

A ONU não representa nem de longe os ideais que a geraram. No entanto, o mundo precisa construir uma instituição respeitada por todos os povos justamente por não representar a hegemonia de nenhum deles. Uma organização que não seja sediada no coração do poder nem funcione com o privilégio de poder de veto dado a meia dúzia de poderosos. 


Glosa 3

Arendt apresenta a mais esclarecida formulação republicana, principalmente ao assumir uma crítica à noção kantiana de inevitável progresso político rumo a um mundo melhor. Assusta mais que um pesadelo a transformação do fascismo local em incontrolável inferno planetário. Qualquer que seja o porvir, para que a humanidade possa um dia se constituir ou ser inventada de fato, dele deverá ser excluída a possibilidade imperial, a supressão das diferenças, línguas, costumes, rostos, vizinhanças, cheiros, o reducionismo dos argumentos que sustentam teorias de ganho e eficiência com a padronização do humano, numa apreensão dos indivíduos como mercadorias. 


Glosa 4

Nascemos no cosmos e para o cosmos. A oposição dialética entre local e global encobre (os modernosos escreveriam atualiza) a velha oposição entre senhor e servo. Não faz sentido pensar o nacional contra o mundo, mas instalar simultaneamente ambos no mesmo campo. Significa lutar contra o apagamento, contra a conversão da vida em resíduo, do mundo em refugo, do indivíduo em estatística.


Glosa 5


O mundo que Arendt conheceu e descreveu com notável argúcia já não existe mais. Os conceitos de cidadania, república e representação política estão em dissolução, apesar de usados pela burguesia como instrumento conceitual de justificativa da manutenção do poder. Parte do mau cheiro do nosso tempo exala justamente do seu processo de decomposição.

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