Alphonsus de Guimaraens

Alphonsus de Guimaraens (1870-1921)

Em meio a um domingo nublado, lembrei-me de "Ismália", belíssimo trabalho do grande simbolista católico que foi Alphonsus de Guimaraens. Na atmosfera onírica do poema, as imagens constroem o sonho enlouquecedor de Ismália – a cisão do real - com uma musicalidade extraordinária e um pungente lirismo capaz de contornar o drama e dar à morte a força de uma plástica intervenção divina. 


























Ismália

Quando Ismália enlouqueceu,
Pôs-se na torre a sonhar...
Viu uma lua no céu,
Viu outra lua no mar.

No sonho em que se perdeu,
Banhou-se toda em luar...
Queria subir ao céu,
Queria descer ao mar...

E, no desvario seu,
Na torre pôs-se a cantar...
Estava perto do céu,
Estava longe do mar...

E como um anjo pendeu
As asas para voar...
Queria a lua do céu,
Queria a lua do mar...

As asas que Deus lhe deu
Ruflaram de para em par...
Sua alma subiu ao céu,
Seu corpo desceu ao mar...

In Pastoral aos crentes do amor e da morte. In: Cantos de amor, salmos de prece. Rio de Janeiro, J. Aguilar; Brasília, INL, 1972, p. 144. Essa edição é uma antologia organizada por Alphonsus de Guimaraens Filho.

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