A ironia em Estar sendo. Ter sido, de Hilda Hilst
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A ironia em Estar sendo. Ter sido, de Hilda Hilst
José Antônio Cavalcanti
A respeito do modo irônico, vale a pena ressaltar a dificuldade de recortar com nitidez o conceito de ironia (είρωνεία), apesar de numerosos estudos a que o termo deu margem. D. C. Muecke (1995), em estudo clássico sobre a ironia, chamou a atenção para a natureza vaga, instável e multiforme desse conceito, após reconhecer que toda literatura é fundamentalmente construída com o seu concurso. Trata-se de um conceito esmiuçado sob as mais variadas perspectivas e sob as mais diversas formas: ironia trágica, cômica, de modo, de situação, filosófica, prática, dramática, verbal, retórica, autoironia, ironia socrática, romântica, cósmica, do destino, do acaso, de caráter, entre outras.
Segundo Lélia Parreira Duarte, “cada autor tem a sua própria ironia, que não difere apenas em técnicas, estratégias ou estilos de época” (2006, p. 18). Entretanto, a estudiosa atém-se a dois tipos especiais de ironia: a ironia retórica e a ironia romântica.
Ao traçar a transformação operada no sentido atribuído à ironia, Lélia Parreira Duarte toma por base modificação sofrida pela posição do autor literário. No classicismo, de acordo com a ótica dessa estudiosa, a posição do autor é revestida de autoridade, pois o escritor acredita estar de posse de verdades, razão pela qual irradia certezas e lições a serem compartilhadas pelo receptor. No romantismo, há uma substancial alteração trazida pela valorização do indivíduo, representada na escrita pelo privilégio concedido ao eu, cujo desejo de absoluto choca-se com a sua precariedade e seu caráter transitório. O paradoxo formado pela necessidade e pela impossibilidade de uma totalização da realidade é resolvido pela ironia romântica. Nela os mecanismos de construção textual, os artifícios da ficção são exibidos devido ao surgimento de uma figura denominada pela autora “representante da representação”, instância que subtrai o caráter predominantemente mimético do texto para exibi-lo como produção, portanto como linguagem. Tal fato, além de ser comprovado pela exploração sistemática de inúmeros recursos metanarrativos em Hilda Hilst, permite compreender o emprego sistemático da ironia como uma espécie de solda, de sutura, de proliferação de cicatrizes textuais sob as quais movem-se as forças antitéticas que sustentam o texto. Ou seja, a ironia hilstiana é o processo que impede o efetivo estilhaçamento de suas narrativas.
Ao chamar a atenção para a diversidade de formas e funções da ironia, Lélia Parreira Duarte destaca dois aspectos: “um primeiro, em que o dito irônico quer ser percebido como tal, e um segundo – caso da ironia humoresque –, em que o objetivo é manter a ambiguidade e demonstrar a impossibilidade de estabelecimento de um sentido claro e definitivo” (DUARTE, 2006, p. 18).
Do primeiro aspecto, serve como exemplo, entre inúmeros presentes no texto hilstiano, a explosão de Matias ao tropeçar na muleta de Vittorio: “por que você põe a porra da muleta bem nesse canto? É aquele canto, Hermínia, o teu canto com Alessandro. Aquele onde te molhaste, desejosa” (p. 24). A permanência simbólica de um instrumento de sua impotência no mesmo espaço onde se concretizara a infidelidade conjugal é um traço visível da ironia.
Já a apropriação erógena de seus escritos por parte das amigas de Hermínia permite aproximá-la da ironia humoresque:
“agora me escreves contando que mostra os meus textos para várias senhoras do teu clube, que enquanto jogam pôquer (!) alisam as minhas páginas pousadas numa mesinha ao lado... que estranho... uma delas, tu dizes, Martinha, cheira as páginas... por quê? e quando o jogo termina, algumas colocam uma ou duas páginas entre as coxas... escuta, Hermínia, mas onde é isso? se bem me lembro mandei a você textos castos, quase teologais, falo inclusive das dúvidas de alguns quanto à verdadeira natureza do Cristo. Descrevo o suposto perfil de Jesus...” (HILST, Hilda,, p. 22)
O efeito inesperado produzido pelos textos só pode ser atribuído por Vittorio a um ocultamento da realidade. Sem dispor de dados que lhe permitam compreender a reação das mulheres, inverte os termos da carta de Hermínia: no lugar de clube, lê bordel; em vez de amigas da esposa, imagina “marmanjos” ou “bichonas”. Apesar das substituições operadas, o sentido permanece sem um esclarecimento completo.
Desde a sua entrada no mundo, atribuída por Kierkegaard à provocativa reflexão de Sócrates (2006, p. 23), a ironia sempre foi uma estrutura comunicativa, por isso pressupõe uma construção mútua pelo ironista e pelo público, presenças simultâneas na decodificação da duplicidade de sentido e da inversão operada entre o que se diz e o efetivamente dito, diferença que reveste a ironia retórica de usos ideológicos:
“A ironia (simulatio, illusio, permutatio ex contrario ducta; em grego ironia = antífrase), como tropo de palavra (...) é a utilização do vocabulário que o partido contrário emprega para os fins partidários, com a firme convicção de que o público reconhecerá a incredibilidade desse vocabulário. Deste modo, a credibilidade do partido que o orador defende é mais reforçada e de tal modo que, como resultado final, as palavras irônicas são compreendidas num sentido que é contrário (...) ao seu sentido próprio.” (LAUSBERG apud DUARTE, p. 20)
Nos diálogos de Vittorio com o filho e com Matias a ironia exige um permanente dispêndio de energia a fim de surtir os efeitos desejados com o seu uso. Tal esforço não reflete a fragilidade de tal recurso discursivo, pois tem por função reforçar o distanciamento entre os pensamentos do protagonista e as necessidades de convivência social traduzidas por aquilo que restou de seus laços familiares e sociais.
Ao mobilizar capacidades cognitivas do receptor, a ironia retórica ultrapassa o nível restrito ao vocabulário e à inversão de sentido das palavras; passa a vincular atitudes e pensamentos, relacionando a polissemia vocabular à compreensão dos contextos pelos quais as palavras circulam.
Se na ironia retórica a mensagem deve ser lida em sentido antifrástico, revelando tanto a simulação quanto a dissimulação, na ironia humoresque a ambiguidade não propicia uma definição. Consequentemente revela uma indiscernibilidade textual, uma indefinição semântica responsável pela dificuldade de decifração ao instituir uma pluralidade de caminhos para o receptor.
Essa maior liberdade do ironista, sem a obrigação de instituir um sentido ao qual só resta ao leitor o exercício da submissão, propicia um mergulho em questões que desenham os limites e a precariedade da condição humana:
“Essa atitude irônica contesta o inaudito, o original, o sagrado, mostra que nada é eterno e duradouro, nenhum juramento é para sempre, o universo não é infinito. Suprema questionadora das premissas sacrossantas, por suas interrogações indiscretas ela arruína toda definição e reaviva incansavelmente toda problemática, mostrando-nos o espelho côncavo em que enrubescemos de nos ver deformados, para que aprendamos a não nos adorarmos. Apesar de seu pessimismo, a ironia humoresque considera os renegados indulgentemente; não se indigna com as traições nem se espanta com as conversões. Esvazia a falsa sublimidade, as exagerações ridículas e o pesadelo das vãs mitologias. Imuniza contra as decepções e é antídoto para as falsas tragédias. O ironista escolhe ser um outro que não ele mesmo; cita-se por ironia e prevê a troça do outro. Diz então, à sua maneira, que a essência do ser é o devir, que não há outra maneira de ser que dever-ser; explora assim com virtuosidade a dissociação entre ser e parecer, o equívoco entre o parecer e o aparecer, o desacordo do pensamento com a linguagem, do pensamento com a ação, do pensamento consiigo mesmo.” (DUARTE, p. 33)
A ironia romântica, uma concepção originária do círculo dos primeiros escritores românticos alemães reunidos em Iena, cuja figura central foi Friedrich Schlegel, singulariza-se por problematizar a ideia de representação na arte. Surge na contramão da fenomenologia hegeliana, presa a uma concepção em que a arte conserva uma natureza especular, simulacro da realidade, portadora de uma verdade. Hegel sustenta que o objeto da arte é incompatível com o pensamento, com o conceito e que a presença deste em uma obra de arte anula a sua qualidade estética. Defende a tese de que a arte não possui mais a plenitude alcançada na Antiguidade, transformando-se apenas em objeto de representação, situado em plano inferior ao da religião e ao da cultura por sua incapacidade de satisfazer a exigência de Absoluto. Credita à ironia romântica o esvaziamento do conteúdo substancial existente no indivíduo:
“Mas a ironia, que é própria da individualidade genial, consiste na autodestruição de tudo o que é nobre, grande e perfeito, de modo que a arte fica reduzida, até em suas produções objetivas, à representação da subjetividade absoluta, visto que tudo quanto para o homem tem valor e dignidade se revela inexistente após a sua autodestruição.” (HEGEL, p. 61)
Friedrich Schlegel, para quem a “ironia é clara consciência da eterna agilidade, do caos completo e infinito” (1994, p. 113), desestabiliza o universo totalizante hegeliano, ao criar as bases para a compreensão da arte como um processo autônomo com a possibilidade de inscrição, no próprio corpo das obras, de reflexões sobre o processo criador e com a marca de uma plenitude inalcançável:
“A ironia é a única dissimulação absolutamente involuntária e no entanto refletida [...] Nela tudo deve ser brincadeira e seriedade, expansão sincera e profunda dissimulação [...] Ela contém e suscita o sentimento do conflito insolúvel do absoluto e do circunstancial, da impossibilidade e da necessidade de uma comunicação total.” (SCHLEGEL apud BRAITH, 2008, p. 30)
D. C. Muecke refere-se à concepção schlegeliana como uma equivalência entre o artista, de um lado, e Deus ou a Natureza, de outro, e como uma superação dos próprios limites criativos, processo no qual o leitor também é incorporado:
“Esta superação criativa da criatividade é a Ironia Romântica; ela ergue a arte a uma força superior, de vez que vê na arte um modo de produção que é artificial no mais alto sentido, porque plenamente consciente e arbitrário, e natural no mais alto sentido, porque a natureza é semelhantemente um processo dinâmico que cria eternamente e eternamente vai além de suas criações." (1995, p. 41)
Agamben, cujo pensamento não compartilha a revalorização do romantismo de Iena, aponta para esse dobrar-se da arte sobre si mesma:
“A Ironia significava que a arte tinha que tornar-se seu próprio objeto e sem que mais encontrasse seriedade real em qualquer conteúdo, podia de agora em diante representar a potencialidade negativa do Eu poético, que, negando, continua a elevar-se para além de si mesmo numa duplicação infinita.” (AGAMBEM apud CAVENDISH, 2008, p.15)
A produção de natureza artística passa a ser mobilizada por uma consciência em ação, para quem somente uma atitude ambivalente pode totalizar a conformação paradoxal do mundo. Pelo apelo frequente à parábase, o artista evita a ilusão de representação da realidade para mostrar a si mesmo no trabalho de criação, ou seja, ao exibir uma obra de arte capaz de expor as próprias entranhas, o artista atesta a autonomia da experiência estética.
Kierkegaard faz derivar da pergunta, concebida como a relação entre indivíduo e objeto e indivíduo com um outro indivíduo, a proposta irônica:
“(...) a intenção com que se pergunta pode ser dupla. Pois a gente pode perguntar com a intenção de receber uma resposta que contém a satisfação desejada de modo que quanto mais se pergunta tanto mais a resposta se torna profunda e cheia de significação; ou se pode perguntar não no interesse da resposta, mas para, através da pergunta, exaurir o conteúdo aparente, deixando assim atrás de si um vazio. O primeiro método pressupõe naturalmente que há uma plenitude, e o segundo, que há uma vacuidade; o primeiro é o especulativo, o segundo o irônico. Era este último o método que Sócrates praticava frequentemente.” [Grifos do autor]. (2006, p. 42)
Kierkegaard observa que a aporia que encerra as indagações socráticas produz, aparentemente, diálogos “sem resultado” (2006, p.56), porém a não obtenção de resposta não significa resultado negativo; a própria negação, cuja forma mais pura é alcançada pela ironia, já é um novo resultado. A ironia exibe, na não resposta, uma circularidade infinita, renova constantemente a tentativa de erigir o ato de compreensão em um processo de devoração do mundo e de si mesmo.
Aos olhos do autor de O desespero humano, em Platão há duas espécies de ironia: uma, considerada como a potência estimuladora inerente à investigação: a outra, autorreferente, centrada em si mesma. Ambas, todavia, resultam em “uma potência negativa a serviço de uma ideia positiva” (2006, p. 104).
Centrada na análise do pensamento de Sócrates, a ironia kierkegaardiana é concebida como a liberdade, infinitamente transbordante, da subjetividade, e coloca para aquele que dela se apropria a exigência imensa de buscar a idealidade em detrimento da realidade. Após assinalar o surgimento da ironia no pensamento de Sócrates, Kierkegaard aponta para um segundo momento da ironia, o do idealismo de Kant e Fichte: “Tem de existir uma segunda potência da subjetividade, uma subjetividade da subjetividade, correspondente à reflexão da reflexão” (2006, p. 212).
A incessância do texto hilstiano, a apresentação e reapresentação circular das questões fundamentais que vazam de livro para livro, em permanente estado de conexão e desconexão, parecem legitimar a ironia como “a liberdade subjetiva [grifo do autor], que a cada instante tem em seu poder a possibilidade de um início [grifo do autor], e não se deixa constranger por relações anteriores” (KIERKEGAARD, 2006, p. 220).
Kierkegaard, apesar de reconhecer a extrema dificuldade em captar o ponto em que a ironia se constitui como tal (2006, p. 108), indica o espaço de sua irrupção:
“(...) a ironia já não se volta para este ou aquele fenômeno individual, contra um existente individual, e sim que toda a existência [grifo do autor] se tornou estranha ao sujeito irônico e este por sua vez se torna estranho à existência, que o próprio sujeito irônico, na medida que a realidade [grifo do autor] perdeu sua validade para ele, até um certo ponto (também) se tornou irreal.” (2006, p. 224)
O perguntar é um estender-se sobre o nada, um movimento que penetra o desconhecido, o indomesticado. O perguntar socrático despe-se de certezas ao desnudar o interlocutor, promovendo a verdade como uma ausência. O texto hilstiano é uma pergunta destinada a si mesma, não possui interlocutores externos; como o diálogo socrático, volta-se para as criaturas que proliferam no próprio sujeito da enunciação. O que alcança o leitor é justamente uma espécie de pergunta encenada. A tensão do texto explode diante dos olhos do leitor, como se a escrita portasse o desejo deliberado de sacudi-lo do torpor habitual por uma espécie de impacto dramático. A pergunta hilstiana, desse modo, é uma ironia dobrada sobre a própria insuficiência de suas formulações. Promove inquietação, abalo, o risco de suspender-se sobre a indeterminação da existência humana como irrealidade, cujos limites visíveis não podem ser codificados em certeza. No plano de pensar e sentir infinitudes, a ironia busca deslocar a insuficiência humana, seus limites, suas fronteiras organizadoras de divisões mediante as quais surge uma realidade lógica, apreensível, concreta. Suspender as fronteiras da existência humana é acenar para o trânsito entre finito e infinito, a criação de uma realidade de extremos para superar os extremos da realidade. Perguntar, então, é purgar, devorar e salvar-se do aprisionamento temporal e do apagamento promovido pela morte para instalar-se no instante incapturável da incessância em que o presente não é porque já foi nem foi porque ainda será. A ironia hilstiana incorpora uma vasta dimensão de formas: a sátira às estruturas políticas decadentes de um Brasil bandalho, a erosão erótica do bom mocismo, o grotesco de deformações expressionistas rasgando as máscaras de aparências exemplares, a exibição zombeteira das impropriedades da linguagem, a perversão diabólica da infância, o humor negro no mais agudo registro niilista, a inversão herética entre Deus e sordidez, além de outros registros. A ampla variação de registros irônicos confere ao texto hilstiano uma grande complexidade irônica, o que torna inútil procurar demarcar um locus específico para a ironia em sua obra. Tudo parece nos dizer que a sua prosa ficcional e a ironia que a alimenta não se distinguem, não podem ser isoladas.
Referências
BRAIT, Beth. Ironia em perspectiva polifônica. 2ª. ed. rev. São Paulo:
Unicamp, 2008.
CAVENDISH, Sueli. “O homem sem conteúdo”. In: Nove abraços no
inapreensível. Alberto Pucheu (org.). Rio de Janeiro: Beco do Azouge:
FAPERJ, 2008.
DUARTE, Lélia Parreira. Ironia e humor na literatura. Belo Horizonte: PUC-
Minas; São Paulo: Alameda, 2006.
HEGEL, Georg Wilhelm Friedrich. Estética: a ideia e o ideal: Estética: o belo
artístico ou o ideal. Trad. Orlando Vitorino. 5ª. ed. São Paulo: Nova
Cultural, 1991. Coleção Os Pensadores.
HILST, Hilda. Estar sendo. Ter sido. São Paulo: Nankin Editorial, 1997.
KIERKGARD, Soren Aabye. O conceito de ironia: constantemente referido a
Sócrates. Tradução Álvaro Luiz Montenegro Valls. 3 a. ed. Bragança
Paulista-SP: Editora Universitária São Francisco, 2006.

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