A loja do outro lado da rua


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Este conto foi publicado no livro Fora de forma & outros foras, publicado pela Ibis Libris, em 2013.

A loja do outro lado da rua


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Uma fase muda, a galope, próxima. Tantas pétalas as fases, frases disfarces da rosa sem rosto. A leveza desejada, no entanto, turva-se ante o tumulto de dias pesados. Nunca se sabe de que lado a  página do próximo minuto cairá virada. Alguma corrente secreta de  ar anuncia recolhimento de luz em redes inquietas, impulso a cisternas anímicas, queda em aquíferos protegidos na área ao sul do pâncreas. Vou buscar um desenho perdido dentro do útero da linguagem impura. Tudo o que preciso fica agarrado às paredes do túnel, livro rupestre de falsa profundidade. Tempo moído, pele, película, pó. Logo você chega com esse cordãozinho de São Judas Tadeu balançando em ouro falso e tão redundante quanto o ondular ofegante daquilo que vejo logo abaixo dele.

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Você chega com esse cordãozinho de São Judas Tadeu balançando em ouro falso e tão redundante quanto o ondular ofegante daquilo que vejo logo abaixo dele. Então os quadros na parede trocam de lugar, perdem o ar de reprodução barata: o nu veste-se de traças, a marinha engole as ondas como se fossem aspirinas de espumas, o falso Renoir derruba champagne em mesas e vestidos do Bal du Moulin de la Galette adquirido do marchand camelô 49 na Central do Brasil. Anulo o gesto instintivo de fuga para enfrentar os demônios ancorados no mar sem fundo dos seus olhos de impura cocaína. Exorcizar o fôlego de mil súcubos suicidas arremessados em fúria contra o meu corpo supera qualquer possibilidade de defesa. Não consigo evitar tapas no rosto, pescoço, tórax. Só dez degraus abaixo da porta percebo o logro; a respiração alterada era um convite, sim, não para cama, mas para retirada. Fico sentado na portaria do prédio de conjugados à espera da trouxa de roupa jogada com insultos pela janela.

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Sentado na portaria do prédio de conjugados à espera da trouxa de roupa jogada com insultos pela janela, vejo a pequena comerciária varrer o chão da calçada em frente à loja de presentes do outro lado da rua. Olha para todos os lados, talvez a mova vergonha de conhecidos, talvez siga orientação do gordo fumador de cachimbo dono da loja e de mil mercadorias (perfumes, bijuterias, empregadas). Os cabelos louros da vendedora luziam ao sol até serem eclipsados por um ônibus parado entre nós. Quando o veículo enfim arrancou rumo a Irajá, os cachos da pequena tornaram-se negros  e a vassoura voara para longe. Vejo-a agora mais magra e bem baixinha. Atravesso a rua para fugir à miopia. Toco as suas costas para ver se ela é de carne e osso mesmo. Vira o rosto triste e sem beleza. Ao se arregalarem, os olhos dispersam uma grossa camada de poeira e desesperança. Sinto que ela não pode me ver, está em pedaços, conformada a um corpo apenas por um contrato de experiência, mãos trêmulas quase na porta do desemprego, retrato à espera de carimbo. O senhor feudal vomita um nome. Meu pequeno e dócil manequim de fibra de vidro desaparece do outro lado da vitrine.

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Quando o pequeno e dócil manequim de fibra de vidro desapareceu do outro lado da vitrine, voltei à entrada do prédio no Catete. Um casal saía às gargalhadas. Duas crianças atrás da explosão de alegria me olharam curiosas. A trouxa quase caiu sobre a mais nova. Discussão áspera. O corpulento diz que vai me encher de porrada, a mulher me xinga. Dizem que não valho nada, não trabalho, exploro a mulher do terceiro andar, uso drogas, desrespeito todas as senhoras casadas, mau-caráter, ateu e tarado. O troglodita me encurrala no canteiro à esquerda da entrada, debaixo da placa Palais de Sérénité. Seus olhos espumosos já me veem saco de pancada. Uma chuva de livros caiu sobre o casal e os filhos. Dicionários, romances russos, livros de xadrez, contistas contemporâneos, poesia erótica, manuais de linguística, meu mundo impresso em anacronia desabava: Deus me mandava o maná prometido. Os livros salvaram a minha vida. Grato, Ciça, você sempre foi ruim de mira. Pulo o corpo desacordado do vizinho com a cabeça sob o dicionário Houaiss aberto no verbete irremissível - “Adjetivo de dois gêneros: 1) que não se pode remitir, que não merece perdão, imperdoável; 2) que não se pode evitar; infalível, fatal”. Me abaixo apenas para recuperar Sonetos Luxuriosos, de Aretino, traduzidos por José Paulo Paes. Desisto das roupas e demais pertences. A loja do outro lado da rua já está fechada; aberta, escancarada, imensa cratera pulsando errância na alma.

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A  loja do outro lado da rua já estava fechada; aberta, escancarada, imensa cratera pulsando errância na alma. Espremida em algum vagão de metrô minha vendedora-manequim flutuava exausta, o calor sufocante ameaçava derreter seu corpo de cera. No conjugado do Catete Ciça vegetava, possuída por decepção e antidepressivos. A lânguida luz de um poste inclinado me convidava a infindáveis copos. Resisti à pressão do passado nas têmporas, inquietante dormência subia pelas artérias alagadas de pesadelos, instalava-se nos buracos de décadas em branco. Ao microscópio meus atos, envoltos em camadas de azinhavre, pulavam semelhantes a amebas sem futuro. Tudo era pulverescência, caos, pesadelo. Sabia-me arquiteto de cidades em ruínas, sem arrependimentos e remorsos. Tudo o que precisava era acionar com êxito os mecanismos que me catapultassem a novos desastres. Nada melhor do que a escrita para afundar-me por inteiro.

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Nada melhor do que a escrita para afundar-me por inteiro. Com Ciça, água pela cintura, no máximo à altura do pescoço. Os braços ficavam livres para tatear falsas alternativas. A mão alcançava a maçaneta da porta de emergência. De uma forma ou outra, sempre uma boia de salvação. A via de escape era invariável promessa não cumprida; na outra ponta, nova hecatombe. Com o tempo aprendi a escapar invadindo territórios alheios. Hoje, por exemplo, preciso me instalar na loja do outro lado da rua para fugir da chuva torrencial. Minto, claro, minto o tempo todo. Minha manequim quase anã virá levantar a grade inglesa às seis horas da manhã. Eis a causa das rachaduras profundas e do inchaço no hipotálamo. Minha manequim-boia-farol um passo à frente. Quando deixar a mochila sobre o balcão e começar a fechar mecanicamente a sombrinha azul circulada por um dragão dourado, vislumbrará o vulto intruso encostado na prateleira de perfumes paraguaios. Apavorada, sim, porém muda. Tentarei falar de destino, de ser impulsionado por ventos misteriosos, da atração exercida sobre um corpo pela passagem da lua sobre o deserto. Todas as palavras irão se desintegrar nos olhos de resina da manequim quase menina. Não se acalmará com frases absurdas. Permaneceremos suspensos no medo do próximo gesto. Não, nada disso acontecerá, preciso dormir para voltar à realidade. Agora, no escuro entre balcões e mercadorias, deito-me com fones nos ouvidos, a pistola à altura das mãos.

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Agora, no escuro entre balcões e mercadorias, deito-me com fones nos ouvidos, a pistola à altura das mãos. Quando acordar, investigarei, debaixo da camada de tártaro dos dentes tortos da minha pequena notável, o nome. Não, melhor não procurar porra nenhuma. Todas as mulheres, ao me revelarem os nomes, abriram um dicionário de centopeias carnívoras especializadas em degustação de desastres amorosos. Sim, nomes lançam nexos, laços, algemas. Nomes exigem biografia e memória, apontam tangências, confluências, margem mínima de afinidades. Nomes são feridas inscritas em corpos de próteses e instantâneos com tintas tragicômicas. Nomes são matilhas furiosas que me perseguem em filas de emprego e ocupações de sem-teto. Alguns tiram fotos, mandam e-mails e torpedos, gostam de gafieira. Permaneçamos, meu bem, indecifráveis anônimos vagabundos. A noite tem pernas curtas. Algum nome secreto abre com estridência a porta da loja e, ao tentar reacendê-la no grau cinza da rotina, pisa o meu pé esquerdo. Arma já bem guardada na cintura, levantei-me incontinente. A situação era confusa. Felizmente não havia explicações. A arma já estava na cintura. Minha musa-manequim esculpida em espanto no interior de magazine muquirana, diva no meio de bugigangas chinesas e paraguaias. Era o meu paraíso: o reino de notas frias, de cédulas falsas, de mulheres chaves de cadeia, de minha subliteratura.

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Era o meu paraíso: o reino de notas frias, de cédulas falsas, de mulheres chaves de cadeia, de minha subliteratura. A pequena funcionária tremia agarrada à mochila coalhada de bótons de ícones pop. Ergueu o braço direito para se apoiar no balcão. Vi as pulseiras girarem no punho como se descobrissem combinações do cofre em que se ocultam pulsações assassinas. Um sentimento de júbilo arrastou-me alguns passos em sua direção. Queria lamber a sensação de abandono nas salas circulares de minha musa-manequim presas à língua acostumada à cegueira de comandos, talvez pudesse retirar as agulhas fincadas no pergaminho enrugado do rosto devastado por retroescavadeiras de lares desfeitos, descobrir um mapa submerso de peixes entorpecidos à procura de águas vulcânicas, ricas em nutrientes, coágulos, miomas. Pus as mãos sobre o material sintético que ligava os ombros à cartilagem mecânica dos braços. O corpo parou de tremer. Seus olhos instalaram um alfabeto estranho em meu destino.

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Seus olhos instalaram um alfabeto estranho em meu destino. Outro DNA invadia meu organismo. Os braços pareciam imantados ao dorso da desconhecida, o tórax inflado, as mãos energizadas e mais largas, a pulseira metálica do relógio arrebentou-se no pulso, o corpo mais pesado e cinco centímetros mais alto.  Tudo era estranheza e turbulência. Quando virei a cabeça para ver quem acabava de ultrapassar o limiar da porta, bochechas maiores do que as de Dizzy Gillespie começaram a insultar a pequena escrava. Da garganta apoplética do comerciante saíam fileiras de nomes sujos.  Raspavam a gosma do farto bigode, banhavam-se em perdigotos e cheques sem fundos, batiam no estuque falho do teto  para desabarem na pele tão clara de minha doce desconhecida, em cujas veias eu podia ver pedras e peixes no fundo. A mudez de minha manequim feria a cláusula x  do contrato; na falta de açoites, uma semana sem pagamento, corte de vale-refeição e auxílio-transporte. O troglodita suava em bicas sobre o teclado em que redigia multa e fundamentações. Processo por perdas e danos. Indignação de ópera bufa com a loja transformada na casa da Mãe Joana. Não vacilei. Peguei a  pistola, apontei-a para o cofre incrustado naquela testa lustrosa, disposto a estourar-lhe os miolos.

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Peguei a  pistola, apontei-a para o cofre incrustado naquela testa lustrosa, disposto a estourar-lhe os miolos, porém, após tensão provocada por rumor exasperante, o piso emborrachado estremeceu e começou a se dobrar. Lentamente papéis amarelecidos escaparam de frestas no chão, movimentando-se em círculos até ficarem suspensos no ar. Poemas de todos os tempos flutuavam entre quinquilharias como fantasmas. Pude ver manuscritos em línguas diversas. Fragmentos de Dante, Donne, Bandeira, Cruz e Sousa, Cesário Verde, Emily Dickinson, Vallejo, Drummond, Khlébnikov, Villon, Cecília, Góngora, Wislawa Szymborska, Antíloco, Hölderlin, Arnaut Daniel levitavam entre tantos outros. Os poemas apagaram os relógios. A pequena comerciária agarrou-se ao meu pescoço. Senti seus minúsculos seios latejarem contra o suor do meu peito. Uma pontada abaixo do coração acusou um estranho dispositivo girando bem rápido dentro do meu corpo. Novo fluxo aquoso percorria minhas artérias, numa pressão intensa, como se caravelas incendiassem o rumo de continentes desconhecidos. Vi o meu rosto mover-se no círculo cor de ferrugem ao redor da pupila da pequena vendedora de miudezas. Havia uma tonalidade azulada nas maçãs do rosto, não sei se refletia a excessiva claridade da loja à beira de curto-circuito ou se minha pele buscava novas camadas de nuvens e areia. Guardei a pistola. O proprietário, aterrorizado pelo fenômeno inexplicável e pela certeza da completa falência, esquecera minha ameaça. Eu não tinha mais razões para matá-lo. Só os humanos são assassinos. Eu já assimilara a natureza complexa de minha musa-manequim. Saímos porta afora, livres para a desintegração do universo.


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