Zbigniew Herbert





Poema de Zbigniew Herbert traduzido por Nelson Ascher

Relatório do Paraíso

No paraíso se trabalha trinta horas por semana
o salário é mais alto os preços caem sempre
o trabalho braçal não cansa (graças à baixa gravidade)
cortar árvores é tão fácil como datilografar
há um sistema social estável dirigentes esclarecidos
de fato o paraíso é mais feliz do que qualquer outro país

De início era para ter sido diferente
coros rodeados de luz gradientes de abstração
mas como não deu para separar direito
carne e espírito chegava-se aqui
com uma gota de gordura um fiapo de músculo
foi preciso considerar as consequências
mesclar um grão de absoluto com um grão de argila
mais um desvio da doutrina um último desvio
apenas João o anteviu: ressuscitareis em carne e osso

Poucos veem Deus
ele é só para os que são 100% pneuma
os demais ouvem boletins sobre milagres e dilúvios
um dia Deus será visto por todos
mas quando ninguém sabe 

Por enquanto todo sábado ao meio-dia
sirenes uivam suavemente
e saindo das fábricas os proletários celestiais 
sobraçam desajeitados suas asas que nem violinos
 

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