Giorgio Agamben

A quem se dirige a poesia?
A
quem se dirige a poesia? Só é possível responder esta pergunta se se entende
que o destinatário do poema não é uma pessoa real, mas uma exigência.
Uma
exigência nunca coincide com as categorias modais com as quais estamos
familiarizados. O objeto da exigência não é nem necessário, nem contingente,
não é possível ou impossível.
Pode-se
dizer, em contrapartida, que uma coisa ‘exige’ (‘exacts’) ou demanda outra,
quando sucede que, se a primeira coisa é, a outra coisa também tem que ser, sem
que necessariamente a primeira esteja implicando logicamente a segunda, ou
forçando-a a existir no âmbito dos feitos. Uma exigência é simplesmente algo
além de toda necessidade e de toda possibilidade. É similar a uma promessa que
só pode ser cumprida por aquele que a recebe.
Benjamin
escreveu alguma vez quer a vida do Píncipe Myshkin exige permanecer
inesquecível, mesmo quando todos a esquecem. Da mesma forma, o poema exige ser
lido, mesmo quando ninguém o leia.
Isto
mesmo pode se expressar dizendo que na medida em que a poesia demanda ser lida,
deve permanecer ilegível. Estritamente falando, não há um leitor de poesia.
É
isto talvez o que Cesar Vallejo tinha em mente quando, ao definir a intenção
última e a dedicatória de quase toda sua poesia, não encontrou outras palavras
mais que dizer para o analfabeto a quem escrevo. É importante nos determos
na formulação aparentemente redundante “para o analfabeto a quem escrevo”. Aqui
“para” significa menos “para” que em “lugar de”; tal como Primo Levi disse que
ele dava testemunho por – isto é, “em lugar de” – aqueles chamados Muselmannerque,
no jargão de Auschwitz nunca puderam dar testemunho.
O
verdadeiro destinatário da poesia é aquele que não está habilitado para lê-la.
Mas isto também significa que o livro, que é destinado a quem nunca o lerá – o
iletrado – foi escrito por uma mão que, em certo sentido, não sabe ler e que é,
portanto, uma mãe iletrada. A poesia é aquilo que regressa a escritura até o
lugar de ilegibilidade de onde provém, para onde ela segue se dirigindo.
(2015)
A
tradução é de Nina Rizzi e foi retirada do blog da autora.
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