Jussara Salazar

Kass Copeland





















Um animal deitado à beira do rio 

Convenhamos
retiro os meus cavalos deste reino
saio à francesa_o corpo dividido
mil nomes imaginários
sob outros nomes
heterônimos
encontrados na rua
perdidos
entre dentes e unhas
e da janela
escuto risadinhas no andar de baixo
são ratos
e sua fúria de ratos
devorando
o esmo
e os meus cavalos
eles
agora deitaram à beira do rio
um rio límpido
um rio sujo
um rio torto
um rio morto
uma canção de deus
sopra o zizi das cigarras
porque sim
deve haver deus
em algum momento
e o horror da beleza
seu cenário
e eu
essa velha máquina
essa imagem sem rosto
esse corpo sem forma
carne e espírito.
eu agora
quando finda o poema
sento à margem desse velho rio

Aurora

o começo canta
desdobra-se
beleza
a espada de são Jorge
brilha ao sol
mas a lua defronte
gira pela porta da noite
a cidade cega
como late o cão
e um braço balança
sobre a escuridão
três ou quatro caprichos
escapam pela janela
escapam sobre a cidade
mas minha mátria
ela
ainda fala
de humanidade

Sumi-e

aos vinte descobri
a palavra indelével. Pintei
dois olhos de coruja
com tinta da china
sobre papel de arroz
o desenho sumiu
os laços se romperam
o tempo foi do tempo
escuto a máquina
lavando os lençóis
modo suave-duplo-enxágue


Вышивка





















Desterro 

Nem mar nem pedra: são um corpo
sim
são dois corpos
adormecidos viajantes
que o mar escuro e revolto recolheu
que o mar escuro e revolto reconhece
suas vestes
seu sono
como um guardião dos dias e das noites
sem nome nem rosto
as águas negras como num sonho
abraçam os náufragos que retornam
adormecidos pelo mar agora
um tecido pontilhado sobre o algodão marítimo
        a areia os acolhe
como a terra imaginária que ficou para trás
não trazem bagagem
apenas seus corpos
seu amor
sua solidão testemunhada pelas mesmas águas
que carregaram seus corpos e
sua memória
seu esquecimento
e vão deixando que sonhem
um som de conchas sonoras
uma cesta de peixes saltando
um afago de algas
estrelas cadentes
ondas e
a espuma rítmica de ulisses
até que despertem
salobros anjos
estranhos
perplexos
vivos


Jussara Salazar é escritora e artista visual. Publicou Inscritos da casa de Alice [1999], Baobá, poemas de Leticia Volpi, [2002], Natália [2004], Coraurissonoros [Buenos Aires, 2008], Carpideiras [2011] com a Bolsa Funarte, ficando entre os finalistas do Prêmio Portugal Telecom na edição de 2012, e O gato de porcelana, o peixe de cera e as coníferas [2014] e Fia [2016].  Tem sua obra publicada em diversas revistas e traduzida para o inglês, o espanhol e o alemão. É Mestra em Estudos Literários pela Universidade Federal do Paraná e Doutora em Comunicação e Semiótica pela PUC/São Paulo.

Comentários